Os homens descem às entranhas da terra.
Levam consigo lamparinas, picaretas e uma obstinação que não conhece repouso. Escavam túneis onde a luz nunca chegou. Rompem veios de prata, extraem ouro, pedras preciosas que dormiram milhões de anos no escuro.
Eles encontram o que a terra escondeu.
Mas há uma coisa que nenhuma escavação alcança. Um tesouro que não está no fundo do mar nem no coração das montanhas. Algo que não se compra com o peso do ouro de Ofir.
A sabedoria.
Deus a colocou fora do alcance das picaretas.
No centro do livro de Jó — quando os amigos já esgotaram suas explicações e o próprio Jó ainda não recebeu a resposta divina — há um poema que parece suspenso no tempo.
Ele começa descrevindo a engenhosidade humana:
“Há veio de onde se extrai a prata, e lugar onde se refina o ouro. O ferro tira-se da terra, e da pedra se funde o cobre.” (Jó 28:1-2)
O ser humano sabe escavar. Sabe perfurar. Sabe chegar aonde a águia não voou e o leão não pisou.
Mas então vem a pergunta que ecoa como um silêncio:
“Mas onde se achará a sabedoria? E onde está o lugar do entendimento?” (Jó 28:12)
A resposta é devastadora e bela:
“O abismo diz: ‘Ela não está em mim’; e o mar diz: ‘Não está comigo’. Não se pode comprar a sabedoria com ouro, nem pesar prata como seu preço.” (Jó 28:14-15)
O capítulo termina com uma chave que não é uma escavação, mas uma inclinação:
“Eis que o temor do Senhor é a sabedoria, e apartar-se do mal é o entendimento.” (Jó 28:28)
Se Deus é bom, por que não deixou a sabedoria à superfície, como o ferro e o cobre?
O teólogo e pastor suíço Hans Urs von Balthasar escreveu que a beleza — e a sabedoria com ela — sempre exige uma busca. Não porque Deus seja avarento, mas porque o ser humano precisa ser transformado no processo de procurar:
“A glória de Deus não se impõe como um peso. Ela se oculta para que o coração aprenda a desejar.” (BALTHASAR, 1961, p. 112)
Já o poeta inglês John Milton, no Paraíso Perdido, colocou na boca do anjo Rafael uma verdade que ecoa Jó 28: a sabedoria não é um dado bruto, mas uma relação:
“A sabedoria não é apenas conhecer. É conhecer na presença do temor. Sem esse temor, o conhecimento incha e a mente se perde em si mesma.” (MILTON, 1667, Livro VII)
E o escritor russo Leonid Andréiev, num conto sombrio sobre minas e homens, percebeu o paradoxo:
“O homem desce à terra em busca de riquezas e sobe carregando pedras que valem mais que vidas. Mas a sabedoria — essa não sobe à superfície. Ela só desce. Desce ao coração humilhado.” (ANDRÉIEV, 1908, As Trevas)
Vivemos numa época que quer tudo na superfície.
Cinco minutos de leitura. Um resumo executivo. Um devocional de trinta segundos. A sabedoria reduzida a dicas, listas, hacks.
Mas Deus diz: “Ela não está aí.”
A sabedoria não é um conteúdo para ser baixado. É uma profundidade para ser vivida.
Ela exige:
Temor — não um medo paralisante, mas a percepção de que você está diante de algo maior que você.
Busca — longa, muitas vezes cansativa, quase sempre silenciosa.
Humildade — a coragem de dizer: “Não sei. Mas quero aprender.”
O pastor e escritor A. W. Tozer, que passou a vida rastreando a presença de Deus, escreveu com a sabedoria de quem escavou fundo:
“O que vem à mente de Deus quando pensa em nós? Aquilo que somos diante dEle — isso é a única realidade que importa. E essa realidade não se alcança correndo, mas esperando.” (TOZER, 1948, p. 23)
Você tem buscado a sabedoria como quem busca ouro — ou como quem busca um rosto?
O que significa “temer ao Senhor” num mundo que chama de coragem a indiferença?
Se a sabedoria está escondida, talvez o problema não seja a profundidade do poço, mas a nossa pressa em desistir de cavar.
“Senhor, que escondes tesouros onde os olhos apressados não veem, dá-nos paciência de minerador. Ensina-nos que a sabedoria não se compra — ela se recebe. E que o primeiro passo para encontrá-la não é estender a mão, mas dobrar os joelhos. Ajuda-nos a esperar. E enquanto esperamos, que o temor de Ti seja o nosso poço. Amém.”
ANDRÉIEV, Leonid. As Trevas e Outros Contos. São Paulo: Cosac Naify, 2008. (Originalmente publicado em 1908).
BALTHASAR, Hans Urs von. A Glória do Senhor: Uma Estética Teológica. São Paulo: Loyola, 2015. (Originalmente publicado em 1961).
MILTON, John. Paraíso Perdido. Tradução de Daniel Jonas. Porto: Guerra & Paz, 2020. (Originalmente publicado em 1667).
TOZER, A. W. A Busca por Deus. Rio de Janeiro: CPAD, 2018. (Originalmente publicado em 1948
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