Eclesiastes: O Cântico do Sopro​

logo_banner2-1-1024x287 Eclesiastes: O Cântico do Sopro​

Eclesiastes: O Cântico do Sopro

Chama-se a si mesmo de Qoheleth, aquele que convoca a assembleia para o espanto.

Ele diz que foi rei em Jerusalém. Ou, ao menos, usa a coroa como máscara — porque só um homem que teve tudo pode ensinar o nada. Salomão é seu fantasma. Seu nome emprestado. Sua dor ilustrada.

Sob o sol — sempre esta expressão, sob o sol — tudo se move em círculos. O vento vai e volta. Os rios correm para o mar que nunca se enche. Os olhos nunca se saciam de ver. Os ouvidos nunca se fartam de ouvir. A geração vai, a geração vem, e a terra permanece, impassível como uma testemunha cansada.

Ele experimentou o riso — e disse: estás louco. Experimentou o vinho, as mulheres, os jardins suspensos, os tanques de água corrente, os cantores e cantoras, o deleite dos filhos dos homens. Acumulou prata como pó. Teve servos nascidos em sua casa. Nada reteve do que os olhos pediram.

E no fim de tudo — sopro. Hevel. A palavra que significa vapor, brisa, engano, fragmento de nuvem que a mão tenta fechar e encontra apenas ar.

Mas o homem não sabe o que vem depois. O tempo é um senhor silencioso. E Deus colocou o mistério no coração humano — a beleza terrível de nunca entenderem completamente a obra que Ele faz de um ao outro extremo.

O que é que falta ao que está feito?

Nada. Tudo está feito. E, no entanto, tudo cansa.

Ele viu a opressão sob o sol. Lágrimas dos oprimidos — e nenhum consolador. Do lado dos opressores, poder — e nenhum consolador. E morrem ambos do mesmo jeito.

Os peixes são apanhados na rede ruim. As aves, no laço. E os filhos dos homens, no tempo mau, quando de repente cai sobre eles a desgraça.

Disse então Qoheleth em seu coração:

  • Melhor é um punhado de descanso do que dois punhados de trabalho e correr atrás do vento.
  • Melhor é o cão vivo do que o leão morto.
  • Melhor é ir à casa do luto do que à casa do banquete — porque ali se aprende o fim de todo ser humano.

Come, pois, teu pão com alegria. Bebe teu vinho com coração contente. Veste teus vestidos brancos. Que o óleo nunca falte em tua cabeça. Vive com a mulher que amas todos os dias da tua vida vã — porque esta é a tua porção debaixo do sol.

Não perguntes por que os dias passados foram melhores. Não perguntes por que o justo perece e o ímpio prolonga seus dias. O vento sopra onde quer. O osso cai na cova sem saber de onde veio. A semente germina ou apodrece — e tu não sabes qual.

Tudo veio do pó. Tudo voltará ao pó.

Mas, no meio do caminho, entre o nascer e o morrer — há o dom. O dom de Deus não é a resposta. É o instante. A mão que alcança o pão. Os olhos que veem o sol. O corpo que se alegra no trabalho que Deus lhe deu.

No fim, o Pregador diz uma última coisa: teme a Deus e guarda os seus mandamentos. Porque Deus há de trazer a julgamento toda obra — até aquela que fizeste nas escuridões do teu quarto, até aquela que ninguém viu, até o suspiro que tu mesmo esqueceste.

E então o pó volta à terra. E o espírito volta a Deus, que o deu.

Vaidade de vaidades. Tudo é vaidade.

Mas não um vazio amargo. Um sopro. Leve como a respiração. Breve como a flor do campo. Real como o vento que toca teu rosto e já se foi — mas por um instante, foi vento.

Capítulo 1 – O Círculo sem Fim

Tudo é sopro. Gerações vão e vêm, a terra permanece. O sol se apressa, o vento gira, os rios correm para o mar que nunca se enche. O olho não se farta, o ouvido não se sacia. O que foi será, e nada há de novo debaixo do sol. Qoheleth, o Pregador, filho de Davi, decide buscar sabedoria — mas descobre que na muita sabedoria há muito desgosto.

Capítulo 2 – O Banquete do Nada

Ele prova o riso, o vinho, as obras grandiosas. Constrói casas, jardins, tanques. Acumula prata e ouro, servos e cantores. Tudo o que os olhos pediram, ele deu. E no fim? Sopro. O sábio e o tolo morrem da mesma forma. A sabedoria é melhor que a loucura, mas a morte apaga a diferença. Então ele passa a odiar a vida — porque todo trabalho é feito para quem virá depois, e ninguém sabe se esse será sábio ou insensato.

Capítulo 3 – O Tempo e o Mistério

Tudo tem o seu momento: nascer e morrer, plantar e arrancar, amar e odiar, guerra e paz. Deus fez tudo apropriado ao seu tempo, mas pôs o mistério no coração humano — ninguém alcança a obra que Ele faz do início ao fim. O homem não é melhor que o animal; todos respiram o mesmo ar, todos voltam ao pó. A conclusão: alegrar-se e fazer o bem enquanto se vive. O que Deus faz dura para sempre.

Capítulo 4 – A Solidão do Poder

Qoheleth vê as lágrimas dos oprimidos — sem consolador. Vê o poder do opressor — sem consolador. E os mortos são mais felizes que os vivos. Depois, vê o tolo que cruza os braços e se consome — melhor é um punhado de descanso. Também vê o solitário que trabalha sem fim, sem filho, sem irmão, e pergunta: para quem trabalho eu? Melhor é serem dois, porque um levanta o outro. E um cordão de três dobras não se rompe.

Capítulo 5 – O Templo e o Sonho

Não te apresses com tua boca. Melhor é ouvir do que oferecer sacrifício de tolos. Multiplicar palavras é vaidade. Deus está no céu, tu estás na terra. Sonhos, muitas palavras e vaidades também se multiplicam — mas teme a Deus. Qoheleth vê a opressão dos pobres e perverte a justiça, mas sabe: o Altíssimo vigia. Quem ama o dinheiro nunca se farta. Doce é o sono do trabalhador; rico, insone, consome a si mesmo. No fim: comer, beber e alegrar-se no trabalho — isso é dom de Deus.

Capítulo 6 – A Fome do Rico

Há um mal que o Pregador vê: o homem a quem Deus deu riquezas, honra e tudo o que a alma deseja, mas não lhe permite desfrutar. Ainda que viva dois mil anos, seu ventre nunca se enche. Melhor é a criança natimorta — ela não viu o sol, não conheceu nada, mas achou mais descanso do que o rico insaciável. O que é o homem para contender com Aquele que é mais forte?

Capítulo 7 – A Casa do Luto

Melhor é ir à casa do luto do que à casa do banquete. Melhor é a tristeza do que o riso. A sabedoria é boa como herança — protege como o dinheiro, mas a excelência do conhecimento é que ele preserva a vida de quem o possui. Contudo, Qoheleth não encontra o que busca: um justo que nunca peque, uma mulher direita no meio de mil. Deus fez o homem reto, mas eles buscaram muitas astúcias.

Capítulo 8 – A Sombra do Governante

Guarda o mandamento do rei — por causa do juramento a Deus. Quem obedece não experimenta o mal. O sábio conhece o tempo e o juízo, mas há um peso sobre o homem: o mal é aplicado ao justo, o bem ao ímpio. O Pregador louva a alegria, porque debaixo do sol não há bem maior do que comer, beber e alegrar-se. Ainda que o pecador faça o mal cem vezes e viva muitos anos, sei que irá bem aos que temem a Deus.

Capítulo 9 – O Acaso e a Morte

Tudo acontece igualmente a todos: justo e ímpio, bom e puro e impuro, quem sacrifica e quem não sacrifica. O mesmo destino alcança o que jurou e o que teme jurar. Os vivos sabem que hão de morrer; os mortos não sabem nada. Vai, pois, come teu pão com alegria, bebe teu vinro com coração contente, veste roupas brancas, vive com a mulher que amas — porque esta é a tua porção. O curso do homem não está na sua velocidade, nem na guerra dos fortes, mas no tempo e no acaso.

Capítulo 10 – A Mosca no Perfume

Como a mosca morta faz exalar mau cheiro ao perfume, assim um pouco de insensatez pesa mais que a sabedoria e a honra. O coração do sábio está à sua direita; o do tolo, à esquerda. Qoheleth observa os príncipes andando a pé enquanto servos cavalgam, descuidos que arruínam reinos. O trabalho do sábio traz vida; a língua do tolo o consome. Não amaldiçoes o rei nem em pensamento — pois as aves do céu levariam a tua voz.

Capítulo 11 – Lança o Teu Pão

Lança o teu pão sobre as águas — e depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete e até oito — porque não sabes que mal virá sobre a terra. Quem observa o vento nunca semeará; quem olha as nuvens nunca colherá. Planta pela manhã, não descanses à tarde — porque não sabes qual prosperará. Alegra-te, jovem, na tua mocidade, mas sabe que Deus te trará a juízo sobre todas estas coisas.

Capítulo 12 – O Pó Volta à Terra

Lembra-te do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias. Dias em que os guardas da casa (os braços) tremem, as janelas (os olhos) se escurecem, o moinho (os dentes) cessa, a amêndoa floresce (os cabelos brancos) e o gafanhoto é um peso. Antes que se rompa o fio de prata e se quebre o copo de ouro, e o pó volte à terra, e o espírito volte a Deus. Vaidade de vaidades, diz o Pregador — tudo é vaidade. Mas teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque Deus há de trazer a julgamento toda obra oculta.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *