logo_banner2-1-1024x287 Abraão: O Caminhante que Aprendeu a Crer (e a Errar) no Meio do Deserto

Abraão: o homem que caminhou pela fé

E aprendeu a Crer (e a errar) no meio do Deserto

Frequentemente, a imagem que temos de Abraão é a de um herói de mármore, uma figura estática de perfeição espiritual. No entanto, os registros de sua jornada revelam um homem muito mais complexo e, francamente, mais interessante. Ele não nasceu em um vácuo de santidade, mas em Ur dos Caldeus, uma metrópole vibrante onde seu pai, Terá, ganhava a vida fabricando deuses de barro.

O jovem Abrão já demonstrava um ceticismo irônico diante dos negócios da família. Quando seu pai pedia para ele verificar se “os deuses já tinham assado” no forno, ele respondia com a lucidez de quem via o absurdo naquilo: “Pai, deuses não assam. Eles apenas secam”. Foi essa percepção — de que o divino não poderia ser moldado por mãos humanas — que abriu caminho para uma das jornadas mais extraordinárias da história.

1. O Chamado Não Tem Prazo de Validade

A jornada de Abraão começou em uma idade em que a maioria das pessoas busca o repouso das pantufas, não a poeira das estradas: aos 75 anos. O chamado que ele recebeu foi radicalmente desestabilizador, exigindo o abandono de todas as âncoras — terra, parentela e a casa do pai — em troca de um destino que Deus ainda “iria mostrar”.

Ao contar a novidade para Sarai, sua esposa, a reação dela foi o resumo do bom senso: “Sair de casa aos 75 anos? Para ir onde?”. A resposta de Abraão era um salto no escuro: “Ele não disse. Disse que vai mostrar”. Eles decidiram levar o sobrinho Ló por uma razão muito pragmática contida nos relatos: precisavam de alguém jovem e forte para armar as tendas.

“Sai da tua terra. Da tua parentela. Da casa de teu pai. E vai para a terra que eu te mostrarei. […] Sai. E eu farei de ti uma grande nação. Abençoarei os que te abençoarem. Amaldiçoarei os que te amaldiçoarem. Em ti serão benditas todas as famílias da terra.”

 

2. A Fé Coexiste com o Medo (e com a Meia-Verdade)

Um aspecto fascinante desse personagem é que, naquela época, ele ainda era apenas Abrão — um homem comum tentando ouvir uma voz invisível. Ele não era imune ao pânico. No Egito e em Gerar, o medo crônico de ser morto por reis que desejassem sua bela esposa o levou a criar uma “estratégia de sobrevivência” baseada na omissão.

Ele pedia que Sarai se apresentasse apenas como sua irmã. Havia uma lógica legalista por trás do plano: “Mesmo pai, mãe diferente”, ele justificava. Era uma meia-verdade usada como escudo. Ver o futuro patriarca sendo repreendido por faraós e reis estrangeiros por sua covardia o torna profundamente humano. A lição aqui é contemporânea: a fé não é a ausência de medo ou a perfeição moral imediata, mas a disposição de continuar caminhando mesmo enquanto se lida com as próprias fraquezas.

3. O Perigo de Tentar “Ajudar” o Destino

A impaciência é o grande ruído na caminhada da fé. Após dez anos de espera em Canaã e nenhum sinal do herdeiro prometido, Sarai e Abrão decidiram intervir. “Se Deus vai demorar, a gente dá um jeito”, parece ter sido o lema. Seguindo um costume aceito na cultura da época, Sarai ofereceu sua serva egípcia, Hagar, para gerar um filho em seu lugar.

Essa tentativa de apressar o cronograma divino gerou o nascimento de Ismael e, com ele, uma sucessão de conflitos domésticos e ciúmes que ressoam através dos séculos. O episódio é um lembrete filosófico de que a intervenção humana precipitada muitas vezes complica o que a promessa buscava simplificar. Quando tentamos “ajudar” o destino com atalhos, geralmente acabamos criando novos desertos.

4. O Riso como Resposta ao Impossível

Quando a promessa finalmente se afunilou para o impossível — um filho biológico entre um homem de 100 anos e uma mulher de 90 — a primeira reação foi o riso. Não um riso de alegria, mas de incredulidade. Sara, ao ouvir a profecia por trás da cortina da tenda, perguntou a si mesma com honestidade brutal: “Depois de velha e desfalecida, ainda terei prazer?”.

A resposta dela ao anúncio de que seria mãe é uma das frases mais emblemáticas do texto: “Deus é bom, Abraão. Mas não é louco”. No entanto, o nascimento do menino provou que o divino se diverte com as nossas limitações biológicas. O bebê foi chamado de Isaque, que significa “riso”. O nome serviu para transformar o riso de dúvida em um riso de celebração, lembrando que, na gramática de Deus, o impossível é apenas uma oportunidade para a alegria.

5. A Arte de Negociar com o Divino

Abraão não era um servo de obediência muda. Na cena em que Deus revela a intenção de destruir Sodoma, o patriarca assume o papel de um advogado audaz e empático. Ele não aceita o julgamento passivamente, mas questiona o “Juiz de toda a terra”, tentando “baixar o preço” da misericórdia de cinquenta para apenas dez justos.

Essa interação revela um amadurecimento profundo. O homem que antes mentia no Egito por medo agora argumentava com o Criador em favor de estranhos. A fé de Abraão permitia o diálogo e a argumentação; ele entendeu que caminhar com o Divino não exige a anulação da própria mente ou do senso de justiça, mas sim a coragem de interceder pela humanidade.

6. A Ironia da Herança: A Primeira Posse foi um Túmulo

Ao final de sua longa jornada, ocorre um fato carregado de ironia poética. Abraão passou a vida ouvindo que toda aquela terra pertenceria à sua descendência, mas ele viveu nela como um peregrino, morando em tendas móveis. A única parcela de Canaã que ele efetivamente comprou e possuiu legalmente, com escritura e testemunhas, foi uma sepultura.

Ele pagou quatrocentos siclos de prata aos hititas pela caverna de Macpela para enterrar Sara. É um detalhe impactante: o “Pai de Nações” só teve o título de propriedade de um lugar de morte. Isso define sua natureza de estrangeiro; seu legado não estava nos latifúndios que ele acumulou, mas na semente de uma promessa que ele só veria florescer muito depois de sua partida.

Conclusão: O Que Fica do Caminho

A trajetória de Abraão nos ensina que a vida espiritual não é uma linha reta de sucessos, mas um processo de aprendizado contínuo onde o erro é tão didático quanto o milagre. Ele não foi escolhido por ser perfeito — suas mentiras, sua impaciência com Hagar e seus risos de dúvida provam isso —, mas por sua disposição de nunca parar de caminhar.

Como ele mesmo resume em suas memórias finais, “caminhar com Deus não é fácil, mas é bom”. É uma vida marcada pela persistência de acreditar que há “Alguém maior” guiando os passos, mesmo quando o horizonte só mostra areia e incertezas.

Se você recebesse um chamado hoje para abandonar suas certezas e sair de sua “Ur dos Caldeus” particular, sem saber o destino final, você teria a coragem de ser apenas um caminhante?

Jana Moreno Consultoria - (19) 99988-5719
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